A ilusão do foco

Daniel Kahneman
Daniel Kahneman (Foto: Wikipedia)

Escrevi um post há algumas poucas semanas sobre foco e lendo o livro “This will make you smarter”, editado por John Brockman do www.edge.org que eu leio há muitos anos, encontrei um texto do Daniel Kahneman, que é Professor Emeritus de Psicologia na Universidade de Princeton e foi recebedor do Prêmio Nobel em 2002 em Ciências Econômicas. Ele também escreveu recentemente o livro Rápido e Devagar que teve alguma repercussão na mídia.

Kahneman é um pensador genial e bastante malicioso. Ele consegue entender como ninguém as sutilezas e malandragens de nossas falhas mentais como podemos ver nesse texto que fala sobre como coisas crescem de forma desproporcional em nossa mente ao darmos uma atenção focal ao assunto, o que ele chama de a ilusão do foco.

Parece uma coisa bastante trivial e é, mas essa pequena questão acaba por trazer muita distorção em nossa forma de analisar a realidade. Porém, sabendo de sua existência, podemos ficar alertas e diminuir o impacto que isso tem em nossas vidas. Em que se focar é tão importante quanto o não se distrair.

Abaixo eu copio na íntegra o conteúdo da matéria “The Focusing Illusion” que eu traduzi como “A ilusão do foco”:

A educação é um grande determinante de renda – um dos mais importantes – mas é menos importante do que a maioria de nós pensa. Se todos tivessemos a mesma educação, a desigualdade na renda iria ser reduzida em menos de 10 porcento. Quando você foca em educação, você negligencia uma miríade de outros fatores que determinam a renda. A diferença de renda entre pessoas que tem a mesma educação são enormes.

A renda é uma importante determinante da satisfação das pessoas com suas vidas mas é bem menos importante do que a maioria de nós pensamos. Se todos tivéssemos a mesma renda, as diferenças entre as pessoas em sua satisfação com a vida iriam ser reduzidas em menos de 5 porcento.

A renda é menos importante ainda como um determinante de felicidade emocional. Ganhar na loteria é um evento feliz mas não dura muito. Na média, indivíduos que possuem uma renda maior tem uma humor melhor do que as pessoas com renda menor mas a diferença é apenas um terço do que você esperaria. Quando você pensa entre rico e pobre, seus pensamentos estão inevitavelmente focadas em circunstâncias onde a renda é importante. Mas a felicidade depende de outros fatores mais do que depende da renda.

Os paraplégicos são frequentemente infelizes mas não são infelizes todo o tempo porque eles gastam a maioria do seu tempo experimentando e pensando em outras coisas do que focados  em sua deficiência. Quando pensamos em como pode ser um paraplégico, ou cego ou ganhador da loteria, nós focamos em aspectos distintos de cada uma dessas condições. A desarmonia na alocação de atenção entre pensar sobre uma condição de vida e viver a condição per se é o que causa a ilusão do foco.

Os profissionais de marketing exploram essa ilusão do foco. Quando as pessoas são induzidas a acreditar que “precisam ter” determinado produto, eles exageram muito a diferença que o produto vai fazer na qualidade de suas vidas. Essa ilusão de foco é maior para alguns produtos do que para outros, dependendo da extensão na qual esses bens atraem atenção continuada ao longo do tempo. A ilusão do foco provavelmente irá ser mais significante para carros de luxo do que para audiobooks.

Os políticos são tão bons quanto profissionais de marketing em fazer com que as pessoas exagerem a importância de questões nas quais focam suas atenções. As pessoas podem se fazer acreditar que uniformes escolares irão melhorar significantemente os resultados educacionais ou que uma reforma na saúde irá melhor muito a qualidade de vida no país. Sim, podem fazer diferença mas com certeza será muito muito menor do que a esperada quando estamos focados nisso.”