As pessoas simplesmente se esvaziam

Charles Bukowski
“A genialidade pode ser a habilidade de falar coisas profundas de uma forma simples”
– Charles Bukowski

Em 1969, o editor John Martin ofereceu a Charles Bukowski US$100 a cada mês e todo mês de sua vida com uma condição: que ele saísse de seu emprego numa agência do correio se tornasse um escritor. Bukowski, com 49 anos de idade, o fez e em 1971 Martin publicou seu primeiro livro, Post Office pela editora de Martin, a Black Sparrow Press.

Quinze anos depois, Bukowsky escreveu a seguinte carta para Martin sobre sua alegria por ter escapado de seu emprego.

Aqui vai:

12 de agosto de 1986

Olá, John:

Obrigado pela carta. Eu não acho que machuca, às vezes, lembrar como você apareceu. Você conhece os lugares de onde vim. Mesmo as pessoas que tentam escrever sobre isso ou fazer filmes sobre isso, não conseguem entender direito. Eles chamam de ‘9 às 5’. Nunca é das 9 às 5, não há paradas para refeições nesses lugares, na verdade, em muitos deles, para se manter o trabalho, você nem almoça. E ,tem também as horas extras que os livros nunca contabilizam da forma certa e se você reclamar, há sempre outro sacana pra pegar o seu lugar.

Você conhece meu ditado antigo, “A escravidão nunca foi abolida, ela apenas foi estendida para incluir todas as cores”.

E, o que machuca é a consistente diminuição de humanidade daqueles que lutam para manter seus trabalhos que não querem mas tem medo que as alternativas sejam piores. As pessoas simplesmente se esvaziam. São corpos cheios de medo e mentes obedientes. A cor deixa seus olhos. A voz se torna feia. E o corpo. O cabelo. As unhas. Os sapatos. Tudo fica.

Como um jovem eu nunca acreditei que as pessoas pudessem deixar suas vidas serem levadas a essa condição. Como um velho homem, eu ainda não posso acreditar. Por que eles fazem isso? Sexo? TV? Um carro ou pagamentos mensais? Ou crianças? Seus filhos vão fazer o mesmo que eles fizeram?

Antigamente, quando eu era jovem eu ia de emprego em emprego e fui idiota o suficiente para às vezes falar para meus companheiros de trabalho: “Ei, o chefe pode vir aqui a qualquer momento e nos mandar embora, assim, você não percebe isso?”

Eles então, só olhavam pra mim. Eu estava falando algo que eles não queriam que entrasse em suas mentes.

Agora, na indústria, há demissões em massa. São demitidos centenas e milhares e suas faces são assustadas:

“Eu dei 35 anos…”

“Isso não está certo…”

“Eu não sei o que fazer…”

Eles nunca pagam os escravos o suficiente para serem livres, apenas o suficiente para ficarem vivos e voltarem para o trabalho. Eu posso ver isso. Por que eles não conseguem? Eu percebi que um banco de praça era tão bom quanto ou ficar em um bar, bom igual. Por que não chegar lá antes de me colocarem lá? Por que esperar?

Eu me lembro uma vez, enquanto trabalhava como um empacotador em uma empresa de luminárias, um dos empacotadores falou: “Eu nunca vou ser livre!”

Um dos chefes estava passando (seu nome era Morrie) e deixou escapar uma deliciosa risada, apreciando o fato de seu subordinado estar preso por toda vida.

Então, a sorte que eu tive de sair desses lugares, não importa quanto tempo tenha tomado, me deu um tipo de alegria, um sentimento de milagre. Eu agora escrevo de uma mente velha e de um velho corpo, de um tempo onde a maioria dos homens nem pensa em chegar, mas já que comecei tão tarde, eu devo pra mim mesmo continuar e, quando as palavras começarem a faltar e eu precisar de ajuda pra subir uma escada e não possa mais distinguir um pássaro de um clip de papel, mesmo assim, eu ainda sinto que algo em mim irá lembrar (não importa quão longe eu vá) como eu escapei do assassinato, da trapalhada e do trabalho duro, até pelo menos, chegar a ter uma maneira generosa de morrer.

Não haver deixado perder totalmente a vida de alguém parece ser uma realização valiosa, pelo menos pra mim.

seu garoto,

Hank

 

Post traduzido e adaptado para o português de Letters of Note: People simply empty out.

  • jessica

    ameiiiii, inspirador

  • Bruno Talevi

    Muito bom!
    Infelizmente a realidade é esta, e nem todos podem se livrar..
    Espero que todos possam fazer o seu melhor neste sentido, e que a cada dia mais as pessoas se libertem… O medo ainda é poderoso!

  • Tiago RA

    Grande Chinaski

  • gil carneiro

    adoro bukowski e sua forma singela de nos chamar de idiota.

  • Leonardo Almeida

    Apenas a verdade nada mais que a verdade, ele falou.

  • Juliana Garcia

    Sensacional. Ponto.

  • Johnnathan Albano

    Assim vou caminhando ! livre , lindas palavras …

  • Maria-Estrela Lunar Amarela

    André, conheci hoje, seu trabalho; muito bom a sua postagem, excelente!
    Maria do Rocio Macedo-Curitiba/Pr
    Maria-Estrela Lunar Amarela no face e blog

  • Daniel Yoshida

    Novamente um surpreendente artigo.
    E muito real, infelizmente somos condicionados a ‘servir’ e nos vemos ‘encarcerados’ no sistema da nossa sociedade. Presos numa rotina, poucos tem a oportunidade e coragem de ir na contra mão e decidir ser livre.

  • Ricardo

    Bukowski… sendo Bukowski.

  • Zacky Lam

    Achei digno de se ler!

  • Cesar Estivales

    Os “escravos” sempre serão necessários, para dar a “liberdade” para aqueles que “se acham livres”!

    • Será? Eu até concordo parcialmente mas veja o caso do Henry Thoreau que foi viver numa cabana 🙂 Acho que ele não escravizou ninguém pra ser livre. Acho que ser livre não significa uma total e completa falta de compromisso com nada, mas sim, uma devoção ao que se acredita, concorda? Eu sirvo quando acredito e tenho um alinhamento profundo com a causa de quem sirvo…q acha?

      • Luana Sarkis

        Fato!

  • Jonathan

    Meu nome é Jonathan tenho 22 anos e moro em São Mateus no ES.. Há 5 meses fui mandado embora de uma multinacional onde trabalhava.. fiquei lá por 3 anos (péssimos 3 anos)…
    depois que fui mandado embora, me senti como um passarinho.. totalmente livre pra fazer o que eu quisesse… sei que alguns dos meus colegas de trabalho ficaram tristes e outros pensaram assim: “Caraca que cara mané, deixou o emprego escapar pelas mãos!”
    pra esses que pensam assim, só lamento.. hoje acordo cedo todos os dias e venho trabalhar (sou fotógrafo e diagramador) cheio de alegria e vigor.. posso resolver minhas coisas numa boa, tenho tempo de ir a praia ver o sol nascer e bater aquele surf gostoso… coisa que antes era praticamente impossivel fazer, somente nos dias de folga…
    Confesso que quando saí, senti falta do bom e velho dinheirinho todo dia 1º e dia 15 do mês… mas na se compara ao estilo de vida que tenho hoje…
    não ganho nem 1/3 do que ganhava antes.. mas só de saber que posso fazer o que eu quiser, não tem dinheiro que pague isso..

    André obrigado por ter compartilhado esse texto.. foi muito bom e prazeroso lê-lo…
    Parabéns pela página..

    Que DEUS te abençoe..
    #TamoJunto

    https://www.facebook.com/jonathansborba

    • Oi Jonathan, obrigado pela mensagem. Tenho certeza que muita gente leu e se inspirou na sua história de vida. Acho que nossa vida é muito abençoada pra gente não lutar com todas as forças contra qq. opressão nociva ou escravidão branca. Abraços e obrigado! #tamojunto

  • Julio Mousinho

    A mentira secular de trabalhar para viver e a rotina angustiante de viver para trabalhar.

  • Andressa Haifa

    A mais pura verdade…”Eles nunca pagam os escravos o suficiente para serem livres, apenas o suficiente para ficarem vivos e voltarem para o trabalho.”

  • Maria Angelica

    Perfeito e descreve exatamente nossa realidade.

  • Diego

    espetacular! somos todos covardes homéricos!

  • Antonio

    Bukowisk fez a minha cabeça pela simplicidade. Eu jamais tive acesso à esta carta e agradeço ao proprietário do blog, André Bartholomeu Fernandes por conceder-nos esta oportunidade. Eu nunca tinha observado a “Mais Valia” por esta ótica, simples. A carta, maravilhosamente, grata. Marx deveria ler isso. Marx chamava a atenção para o fato de que os capitalistas, uma vez pago o salário de mercado pelo uso da força de trabalho, podiam lançar mão de duas estratégias para ampliar sua taxa de lucro: estender a duração da jornada de trabalho mantendo o salário constante. O que se chamaria de A Mais Valia Absoluta. Por aí traduz-se bem o lamento do colega de montagem de Bukowisk na fábrica de luminárias: “Eu nunca vou ser livre!”. Bukowisk foi livre e escreveu tentando libertar as pessoas que, outrora, foram como ele. Utopias por utopias, que elas perdurem. Como diria o poeta: “Sonhos não envelhecem”.

  • Antonio

    Bukowisk fez a minha cabeça pela simplicidade. Eu jamais tive acesso à esta carta e agradeço ao proprietário do blog, André Bartholomeu Fernandes, por conceder-nos esta oportunidade. Eu nunca tinha observado a “Mais Valia” por esta ótica, simples. A carta, maravilhosamente, grata de Charles Bukowisc a John Martin. Karl Marx deveria ter lido isso em vida. Marx chamava a atenção para o fato de que os capitalistas, uma vez pago o salário de mercado pelo uso da força de trabalho, podiam lançar mão de duas estratégias para ampliar sua taxa de lucro: estender a duração da jornada de trabalho mantendo o salário constante. O que se chamaria de A Mais Valia Absoluta ou ampliar a produtividade física do trabalho pela via da mecanização. Por aí traduz-se bem o lamento do colega de montagem de Bukowisk na fábrica de luminárias: “Eu nunca vou ser livre!”. Bukowisk foi livre e escreveu tentando libertar as pessoas que, outrora, foram como ele o retrato da escravidão em cores diferentes. Recomendo com a alma a leitura deste post. Utopias por utopias, que elas perdurem. Como diria o poeta: “Sonhos não envelhecem”.

  • Nique
  • Kelly Ribeiro

    meu velho Buko

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