Categorias
Sem categoria

COF – Aula 47

Qualquer pessoa cuja meta na vida seja de ordem exclusivamente material, econômica ou social, não serve para vocês, e vocês devem sumariamente se afastar dessas pessoas. Por quê? Existe uma série de coisas na vida que, embora sejam necessárias para nós, pelo simples fato de serem necessárias, elas não podem ser metas.

Por exemplo, você precisa de uma casa, você precisa comer e beber, você precisa descansar, você precisa casar e ter filhos, você precisa de um emprego. Tudo isto são coisas necessárias à subsistência. Ora, aquilo que é necessário à subsistência não pode ser, ao mesmo tempo, o objetivo da existência. O objetivo tem de estar muito acima de tudo isto. E todas estas coisas – esses outros elementos – vêm a nós como coisas que ora nos ajudam, ora nos atrapalham; mas, a partir do momento que o individuo as colocou como meta da existência, ele já cortou toda ligação que possa ter e haver entre ele e o sentido da existência.

O ser humano, nós acabamos de ver, é o bicho que tem a capacidade de perceber o universal no particular. A missão dele, a função dele está determinada por isto. O homem é o animal criado para descobrir o que está além dele, o que está além do mundo sensível e para ele realizar o seu destino nesta esfera. Ninguém tem o direito de não querer isto. Se o sujeito disser “Ah, eu quero casar e ter filho, quero ter um bom emprego, quero ter isto, ter aquilo”, tudo isso são meios para a existência. Então, se você nota que o objetivo do indivíduo está colocado nessa esfera, mesmo que ele diga “eu quero ser um escritor”, “quero ser um poeta”, “quero ser um pintor”; o nome do que ele está dizendo é uma coisa socialmente relevante, mas, mesmo aí, ele está na esfera puramente material.

Lembrem daquele pedaço da “Túnica e os Dados”, que o menino foge de casa, o Jaiminho foge de casa, e deixa o recado pra mãe: “Mãe, fugi para o Rio de Janeiro, eu sinto em mim o borbulhar do gênio”. Se a pessoa não sente em si o borbulhar do gênio – gênio não quer dizer que ela vai ser um grande pintor – não, quer dizer que ela vai descobrir que está voltada para o mistério da existência; ela quer saber o que está para lá. Se a pessoa não tem isso, sumariamente afasta-se destas pessoas. E as trate, evidentemente, com respeito, com deferência, mas com a distância devida. Porque estão abaixo daquilo que é estruturalmente exigido do ser humano. Esse é que é o princípio da distinção das castas.

Embora, na Índia, a noção das castas tenha se cristalizado numa compartimentalização social, nós temos que entender que as castas existem como diferenciações individuais humanas, mescladas em todas as classes sociais. O sujeito pode ter nascido na maior pindaíba, não ter nada, e estar focado no objetivo mais alto da existência; e o outro pode ter nascido em berço de ouro e ser um pateta que está voltado somente para o estômago, para o sexo, para essas besteiras.

Quando você conhecer alguém, veja se dentro do sujeito tem aquela chama que o eleva acima do mundo social vulgar. Se ele tem aquele chamado de Deus para as coisas mais altas; se ele não tem afasta-se dessa pessoa, é um bocó de mola, não vale nada.

Se existe um princípio que justifica uma separação hierárquica entre os seres humanos é este. Não a separação social, econômica, racial, tudo isto aí é materialismo. Você vai hierarquizar as pessoas pelo dinheiro que elas têm no bolso quando, em geral, o dinheiro não foi nem ganho por elas, foi o pai que deu, foi um bisavô; às vezes a família teve um homem de gênio quatro gerações atrás e deixou dinheiro para um bando de vagabundo e os caras acham que são alguma coisa porque receberam dinheiro do bisavô.

O outro que acha que é melhor que o outro porque um é preto e o outro é branco, isto tudo é materialismo, isso é coisa de cachorro: não é um critério humano, é um critério canino. Não aceitem nada disso, mas julguem as pessoas e hierarquizem por isso:

“Ah você não tem a chama do espírito acesa em você, então não quero conversa com você, pois você que se pôs abaixo; não sou eu que estou te classificando, foi você que não quis, você não atendeu o apelo de Deus, você negou a vocação humana, você a jogou no lixo então você já é lixo”.

Então, não hesitem em selecionar os seus amigos, porque se não, estas pessoas que só tem interesses realmente mundanos, vão só atrapalhar a sua vida, vão viver fazendo chantagem: “Ah você não gosta mais de nós”, você tem de falar “Não gosto mesmo. E daí? Se quiser gostar de mim você que trate de melhorar, ocupe o posto de dignidade intelectual e espiritual que lhe foi dado pelo próprio Deus, não despreze o que é superior a você e você não será desprezado também”.

Isto é um elemento que falta muito na cultura brasileira. Pois aí o pessoal só concebe duas coisas: como tudo mundo só pensa com a barriga, então eles imaginam o seguinte: ou você vai ter uma hierarquia social baseada no dinheiro, ou você vai ter um igualitarismo também baseado no dinheiro. São duas coisas absolutamente indecentes, uma tão indecente quanto a outra.[…] Não hesitem, inclusive, em manifestar claramente a sua desaprovação à conduta dessas pessoas. Às vezes, quando estamos sozinhos, é difícil fazer isso, se você é o único então você fica com medo.

Não fique com medo, eu quando era muito jovem tinha medo disso. Depois, a partir dos 20, 30, já fui começando: “Olha, meu filho, da altura que você tá não tem nada que julgar o que estou fazendo. Para mim o anormal é você, porque o ser humano foi feito para ser como eu sou, estou seguindo o que Deus mandou. Deus fez de mim uma criatura espiritual, portanto sou capacitado a fazer as perguntas mais altas e esperar encontrar a resposta. Agora você não, você só quer saber do seu dinheirinho, do seu maldito prazer sexual, da sua casinha, das suas coisinhas. Você está agindo como um animal.”

Olavo de Carvalho, COF, aula 47, via Artur Silva

Por André Bartholomeu Fernandes

Em 2004, André foi responsável por levar internet discada para mais de 4.400 cidades brasileiras. Estudou eletrônica e tecnologia na Unicamp, Harvard e MIT. Trabalha intensivamente em sua nova empresa: Hack além de atender mais de 150 clientes. André criou um blog sobre empreendedorismo, o Jornal do Empreendedor.