Domando nossas reações defensivas

“He who knows others is wise; he who knows himself is enlightened.”
Lao Tzu

Constantemente encaramos situações ou pessoas que questionam nossa importância. Essas ‘ameaças’ à integridade do nosso Ego possuem múltiplas respostas o que pode condicionar significantemente nossa percepção da realidade.

A teoria da auto-afirmação (há um estudo interessante online – “The Psychology of Self-Defense: Self-Affirmation Theory”, Sherman 2006) sugereque o indivíduo responde a ameaças utilizando um sistema de proteção baseado na reafirmação do Ego. Essa reafirmação, que pode ser benéfica psicologicamente para a estabilidade mental da pessoa pode entretanto criar maus hábitos e fraquezas que amplificam a ameaça, resultando em uma defesa heróica ao redor das causas da ameaça.

Nessa situação, o “Conheça a ti mesmo” escrito no oráculo de Delphi é vital para sermos capazes de sobrevivermos a nós mesmos com sucesso, leia-se, as próprias defesas psicológicas que nós levantamos contra as ameaças externas.

Vamos começar definindo o “Ego”. Nossa identidade é complexa e é composta por diferentes realidades. Podemos listá-las abaixo:

  1. Papéis individuais: nós somos as tarefas que realizamos e as atitudes que adotamos perante os outros.
  2. Valores: conjunto de princípios e axiomas que definem nossa ética.
  3. Identidade social: como nós nos apresentamos para os outros, como nos percebemos em nosso grau de interação com a sociedade
  4. Sistema de crenças: religiosas e filosóficas
  5. Metas: o que queremos ser ou as metas que queremos alcançar e a medida de nós mesmos
  6. Relacionamentos: familiares, afetivos, sociais e no trabalho

Qualquer ameaça ao Ego irá afetar uma dessas categorias.

auto-afirmação é um dos mais significantes determinantes do comportamento humano; talvez o fator preponderante, não considerado o campo biológico (necessidades naturais para sobrevivência), diz Oswaldo de Barros Santos

Nos sentimos ameaçados quando nossas crenças religiosas são questionadas, quando nossas metas não são atingidas, quando nossas amizades são perdidas ou quando o resultado do nosso trabalho duro não é apreciado, para citar apenas alguns.

Nm ponto de vista mais econômico, nos sentimos ameaçados quando não atingimos nossas metas, quando nós perdemos dinheiro na bolsa de valores, quando acionistas não apreciam a presumida relevância das nossas decisões estratégicas.

Nosso sistema psicológico reage nos protegendo e pode reagir de três formas:

  • Aceitando o erro
  • Negando a ameaça
  • Reafirmando e reforçando outros aspectos do Ego que não estão relacionados a ameaça

Vamos ver alguns exemplos de como esses mecanismos de defesa funcionam para entender como nós funcionamos para sermos capazes de reconhecer quando estivermos em situações de estresse e melhorar nossas respostas em um ambiente que constantemente evolui e muda.

Aceitando o erro

Nós reconhecemos a ameaça como resultado da nossa fraqueza. Vamos mal em uma prova, nosso chefe critica a qualidade do nosso trabalho, um amigo se chateia com algum comportamento nosso. Nessas situações, nós nos examinamos e admitimos que estamos errados. Essa atitude tem seus prós e contras.

Prós: Os pontos positivos são que isso mostra que podemos ter uma personalidade altamente versátil. Nós podemos nos adaptar a mudanças com facilidade e aprender com nossos erros, o famoso “Seja água, meu amigo”, veja o vídeo abaixo. Nós também projetamos uma imagem de humildade e reconhecimento dos outros que é altamente relacionada com atitudes empáticas que são altamente apreciadas na sociedade atual.

Contras: Nem sempre as ameaças são reais ou resultado dos nossos próprios erros. Pode ser que o indivíduo que gerou a ameaça está errado e mudamos para pior. Também, a aceitação recorrente das ameaças pode enfraquecer nossa personalidade. Podemos acabar perdendo nosso espírito crítico e nosso próprio julgamento.

Negando a ameaça

Um clássico. Todo mundo está errado menos eu. Um pulo na escuridão. Extremamente útil quando, na sua opinião, nós acreditamos que as ameaças são errôneas. Há muitos exemplos de começos difíceis de grandes líderes pelo mundo onde ninguém os apoiava ou eram aconselhados a desistir.

Prós: Perseverança fortalece o indivíduo, fazendo o crer em si e em suas habilidades. Todas as histórias de superação de obstáculos começam com muitas ameaças ao Ego.

Contras: Óbvio, ir direto para o precipício, rejeitando os alertas. Ter como meta algo que pode ser impossível ou possível a um custo altíssimo.

Reafirmando e reforçando outros aspectos do próprio Ego

Essa é uma resposta muito interessante. Nós reagimos a uma ameaça colocando em perspectiva nossa presumida fraqueza com outras áreas em nosso Ego que são mais fortes. O clássico exemplo retratado em filmes de Holywood: o garoto desajeitado do colégio que impossibilitado de ser o capitão do time de futebol luta pelas melhores notas para entrar uma universidade de primeira. O filme recente A teoria do Tudo retrata Stephen Hawking e o momento em sua vida onde houve a superação intelectual em uma situação de declínio em sua condição física.

Prós: Força o indivíduo a se focar em seus pontos fortes e assumir os pontos fracos sem se frustrar.

Contras: Pode gerar um indivíduo desequilibrado como um intelectual que não tem capacidade de se relacionar socialmente ou um indivíduo altamente social com pouca capacidade de pensamento crítico profundo.

Não existe uma resposta certa mas um delicado balanço que devemos procurar. A ideia é estar consciente dos nossos impulsos iniciais e pensar racionalmente nas melhores reações para cada situação e, ao longo do tempo, conseguir ‘domar’ nós mesmos.

“One has to know the size of one’s stomach.”
Friedrich Nietzsche, Ecce Homo

PS: Muito interessante o conteúdo do livro de Oswaldo de Barros Santos: Aconselhamento psicológico e psicoterapia: auto-afirmação como determinante básico do comportamento humano

Imagem: Mosaico do Século I encontrado nas escavações do convento de São Gregório, na Via Áppia, Roma, Itália. O grego motto “gnōthi sauton” (conheça a ti mesmo, nosce te ipsum) combinado com a imagem para ilustrar outro famoso alerta: “Respice post te; hominem te esse memento; memento mori.” (Olhe para trás; lembre-se de que você é mortal; lembre-se da morte.)

  • Dani Caruso Gandra

    Muito interessante perceber como funcionamos tão semelhantemente; as situações vividas por nós podem até não serem idênticas, mas as reações são. Administrar a nós mesmos é a tarefa mais difícil, e ao mesmo tempo, a mais importante. Abraços!

    • Obrigado, Dani. Acho que essa teoria da auto-afirmação é muito importante pra essa função. Estamos sempre reagindo a ameaças externas e acabamos por nos habituar a reações automáticas sem nos darmos conta de que elas acabam por ter as rédeas sem que tenhamos consciência e de tomarmos atitudes que possam resultar em melhores resultados para nossas vidas. Somos uma máquina de sobrevivência num ambiente de 100.000 anos atrás e muitas dessas mecânicas que acabaram sendo imprescindíveis no passado podem causar muitos danos hoje em dia se não tivermos essa capacidade nova de nos superarmos ao entender quem somos e como reagimos. obrigado pela leitura e elogio. abraços