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Padre Leonel Franca

Tristão de Athayde – Especial para LETRAS e ARTES – Rio de Janeiro, 12 de setembro de 1948 .

Eramos cinco, em nossa geração, os companheiros de 1893; Ronald de Carvalho, Mario de Andrade, Leonel Franca, Sobral Pinto e eu.

O primeiro a nos deixar for Ronald de Carvalho, em 1936, depois de ter dado à nossa geração o balanço mais perfeito de nossas letras, do ponto de vista estético e uma obra poética da mais aguda versatilidade e elegância.

Em seguida, Mario de Andrade, em 1945, depois de ter empreendido a mais profunda revolução literária dos nossos tempos e ter aberto o caminho a uma nova fase de nossa literatura.

Agora, Leonel Franca. Já somos apenas dois e sabe Deus até quando?

De todos foi incontestavelmente Leonel Franca o que subiu mais alto, o que se colocou tão acima de sua própria geração, que dominou de longe todas as gerações ainda conviventes, nesta hora sulcada por opções decisivas.

No panegírico que o Provincial da Companhia de Jesus traçou do nosso grande companheiro, do púlpito de Santo Inácio, ante a face ainda descoberta daquele que naquela hora se mostrava “tel qu’en lui-même enfin l’éternité le change, disse o Padre Alonso por duas vezes, com a autoridade do seu cargo, da circunstâncias e das qualidades dos presentes, que aquele cujos despojos ali estavam fôra indiscutivelmente um santo.

Escolheu desde cêdo o caminho da santidade e daí o domínio asoluto e silencioso que exerceu não só sôbre a sua geração tôda, mas ainda sôbre a sua época. Ninguém o excedeu em prestígio intelectual no Brasil, nesses últimos vinte anos. É evidente que nem todos o seguiam. É evidente que nem todos o aceitavam. Já não digo suas idéias ou sua direção, mas ainda mesmo o seu feitio intelectual, a sua intangível disciplina, a sua “lógica de cimento armado”, como me dizia Murilo Mendes, um dia, ao lado ainda de Ismael Nery, durante as memoráveis conferências que por três anos o Padre Franca pronunciou no Santo Inácio uma vez por mês às sextas-feiras à noite, a convite do Centro D. Vital, ai por volta de 1932 e 1935, se não me engano.

Se não havia naturalmente unanimidade, nem podia haver, em tôrno de um homem que tinha optado desde menino por uma Verdade que não admite vacilações no rigor dos seus princípios e das adesões profundas ao Dogma, se bem que permita todas as liberdades nos caminhos que chegam a ela ou que partem da encruzilhada central, – se assim tinha de ser considerável a margem de atitudes diversas em frente a um homem como o Padre Franca, o que não havia era discordâncias quanto à profundidade, à solidez, à harmonia incomparável do seu saber e à agilidade assombrosa de sua dialética.

Leonel Franca foi, no plano teológico e filosófico, o que Rui Barbosa foi no plano político e jurídico. Um florete de analista invencível, nas mãos de um lutador de cultura inabalável e profunda.

Sua cultura não era brilhante. Não era como em geral é a nossa aqui no Brasil, alimentado pelos brôtos das árvores. Era cultura de raízes, de profundidade, de baixo para cima. Não dava, à primeira vista, a impressão de saber muito. Sabia calar. Sabia ouvir como ninguém! Não fazia questão de brilhar. Muito pelo contrário. Silenciava quando podia. Mas à medida que íamos debatendo o assunto, à media que iamos entrando no âmago da ciência, iamos sendo tomados de uma impressão de respeito, até desistirmos de avançar mais, pois quanto mais descíamos e aprofundávamos um tema, mais sólido, encontrávamos o terreno, mais difícil ia sendo qualquer contradição, mais convincentes iam sendo os seus argumentos, a sua dialética de “cimento armado”.

Não conheci, no Brasil, nenhuma cabeça mais organizada que a do nosso glorioso companheiro de geração, cujo saber no entanto ainda era nada ao lado da santidade.

O segrêdo da consagração que foi o seu entêrro e da influência incomparável que exerceu sobre esses últimos vinte anos da vida brasileira estava, como todos os oradores à beira do seu túmulo acentuaram, novos e velhos, na aliança profunda entre o saber e o amor, entre o sábio e o Santo.

A virtude máxima, por isso mesmo, que irradiava dessa figura ascética, que agia pela simples presença, tal a irradiação espiritual daquele corpo esbelto e daquele olhar agudo e bom, como já em 1928 me advertia Jackson de Fiqueiredo, quando me aconselhava a ir ter com êle para pôr ordem e paz em minhas angústias metafísicas, – a virtude máxima desse hoem singular, que talvez um dia se instale ali em Santo Inácio no altar reservado a Anchieta, foi o equilíbrio. Um equilíbrio que não prejudicava em nada, antes ressaltava, a vivacidade, a autenticidade, a plenitude de cada elemento em jôgo, nessa personalidade diferente e solitária, em que se encarnou tudo o que temos de melhor em nossa alma brasileira, com a exclusão de tudo o que tem de ruim e de imperfeito.

Tanto saber e tanta bondade, reunidas na mesma pessoa, não podiam deixar de produzir êsse milagre de nossa geração. Geração traumatisada por duas guerras mundiais, por uma Revolução Social, por uma Crise contiua e universal que Leonel Franca estudou com a mtiulosidade que punha em todas as suas análises da realidade, geração de inquietos, de sacrificados, de angustiados ou de fanáticos, de que êle foi o centro da gravidade. Girávamos em tôrno dele, mesmo os que não participavam de suas idéias, mesmo os que o combateram violentamente ou recusaram as suas idéias ou o seu feitio. Estávamos com êle ou contra êle. Mis longe ou perto dêle. Com o seu temperamento, sem o seu temperamento ou contra o seu temperamento. Não importa. Pelo quilíbrio, pela profundidade do saber, pela harmonia da cultura filosófica, teológica, científica, sociológica e pessoal, que ia do trato intimo diário com Deus em suas meditações das madrugadas e e das moites altas, ao trato não menos intimo com o segrêdo das almas atormentadas no confessionário ou na cela, – por tudo isso, em face de amigos, indiferentes ou inimigos, foi o centro da gravidade de nossa geração, a encruzilhada de nossos caminhos nesses últimos vinte anos.

E para nós, os companheiros de 1893, era a nossa glória, a nossa honra, o nosso refúgio.

Eramos cinco. Depois quatro. Depois três. Hoje dois…

Por André Bartholomeu Fernandes

Em 2004, André foi responsável por levar internet discada para mais de 4.400 cidades brasileiras. Estudou eletrônica e tecnologia na Unicamp, Harvard e MIT. Trabalha intensivamente em sua nova empresa: Hack além de atender mais de 150 clientes. André criou um blog sobre empreendedorismo, o Jornal do Empreendedor.