Porque o futuro é “microtask”

Bem vindo ao mundo da ‘hiper-especialização’. Deixe de lado as generalidades e enfrente as especificidades de frente.

Quando o iPad foi lançado em 2010, uma das deficiências do tablet levantada por quem testou, foi a falta de ‘multitasking’, a capacidade de rodar múltiplos softwares simultaneamente. A Apple, poucos meses mais tarde, lançou uma atualização do iOS já contendo um ‘pseudo-multitasking’, que agradou os críticos.

Desde muito tempo, esse jargão de multi-tasking roda no mundo da tecnologia e é bastante comum usarmos para pessoas. Eu sou um exemplo de ‘multi-tasker’, faço múltiplas coisas ao mesmo tempo. Acho que é raro, hoje, quem não é multi-task. Outro dia ouvi um lama budista (não sei se existe outro tipo de lama sem ser budista mas vai lá), dizendo que medita rapidamente antes de começar seu dia respondendo emails, escrevendo livros e usando o Facebook. Ou seja, nem os budistas, uma das espécies mais tradicionais e ‘monotasks’ de seres humanos estão livres de viver assombrados pela quantidade de pequenas e grandes tarefas do dia a dia contemporâneo.

A tendência é tentarmos fazer de tudo, sermos ‘multi-tarefas’, seguirmos o fluxo,  não decidirmos o que queremos e o que não queremos, apenas tirarmos da frente o que aparecer, sem muito raciocínio.

Se pensarmos em um plano um pouco maior sobre nossas carreiras, postos de trabalho, organizações empresariais atuando num ambiente cada vez mais complexo, vamos ver entretanto que há um ‘trade-off’, um custo de oportunidade para o multi-tasking. Na maioria dos segmentos, uma empresa que tem um foco muito amplo está com um problema nas mãos. Um profissional de carreira também.

Isso é um tanto óbvio: tentar fazer muitas coisas ao mesmo tempo, ou tentar ser “excelente” em várias coisas, é a receita do fracasso.

A receita do sucesso por outro lado é o foco único, micro e repetitivo – e por isso tanta gente acaba se perdendo pra evitar a chatice do dia-a-dia do sacrifício do campeão.

Veja o caso dos nadadores que passam mais de 8h diárias por anos a fio na piscina, ou tenistas que batem milhares de vezes na bolinha e por aí vai. No caso dos nadadores, eles ainda não ganham medalhas de ouro como nadadores. Há uma especialização ainda maior: podem ser nadadores masculinos ou femininos de 50m peito, 200m costas ou 100m borboleta. Há especialização por genêro, distância e estilo. Por essa, e por outras, raros são os seres-humanos que se distinguem entre si e se tornam campeões.

O caminho para o sucesso é repetitivo, monótono e com grandes doses de chateação. Isso sem falar do enorme sacrifício de deixar grande parte da vida de lado, o sacrifício diário que beira o desumano.

Por isso talvez “procrastinamos” a decisão e a especialização e nos tornamos mais um dos que “faz tudo e não faz nada”.

Decidir por um outro curso de vida, ou especialização, é sacrificar oportunidades amplas. A impressão que se dá é que se nos mantivermos “amplos”, vamos conseguir atender um leque de clientes maior, portanto seremos mais úteis a mais pessoas que recorrerão a nós. Ou manteremos nossas vidas mais ricas e menos chatas com portas abertas por todos os lados.

As posições de trabalho e empresas do futuro

O futuro das carreiras e organizações é mais do mesmo que acontece nos esportes só que com um agravante: a especialização é ainda mais obscena.

A internet acentua a especialização porque quem contrata ou compra, pode a um clique de distância se informar, comparar com abrangência global (no mundo todo) a oferta que melhor atende e o quão superior é em relação ao competidor. É um gramática forçada pela forma com que a internet é feita entremeada pelas dinâmicas de um mercado de trabalho global e remoto. A internet , tanto quanto a natureza (veja a imagem abaixo), não é muito boa para abrangências, ela gosta de especificidades (Segundo o Wikipedia, especificidade é a capacidade de agir de modo específico ou produzir algo específico, particular. A especificidade é um dos fatores que constituem a qualidade).

A evolução das profissões segue as regras básicas da evolução natural.
A evolução das profissões segue as regras básicas da evolução natural.

Pense em micro-nichos ecológicos como regra

Ser advogado, médico, engenheiro já não bastava há décadas e no futuro próximo vai bastar muito menos.

O futuro é de profissionais específicos e remotos. Remotos pois a especificidade aguda precisa da massa crítica que apenas uma economia interconectada pela internet é capaz de oferecer.

O futuro já é hoje para alguns felizardos

Um tipo cada dia mais comum de profissional do futuro será aquele que atende remotamente de todo mundo.

Tive um exemplo disso quando eu precisei há alguns dias de um profissional especialista em NLP (Natural Language Processing) – que é um ramo da computação que trabalha com análise de linguagem natural por computadores como identificação de línguas, tradução automática e outros. Entrei no LinkedIn, encontrei um grupo de NLP e postei minha necessidade por um profissional assim. Apareceram no mesmo dia 5 profissionais, 3 vindos dos EUA mas originários da Europa Oriental, 1 de Portugal e 1 indiano. Nenhum brasileiro. Percebi que os que responderam já estão acostumados com essa forma de trabalhar remotamente e globalmente. Vivem disso e conseguem seus trabalhos através da rede social para empresas com necessidades bastante específicas e com critérios elevados de contratação.

Para resumir o processo todo, eu achei uma comunidade (node) onde se agrupavam profissionais dessa especialidade, postei minha demanda e profissionais disponíveis vieram de encontro. Falei com cada um e defini que um deles possuía o perfil mais adequado para o que precisávamos. Seu curriculum também trazia muitas credenciais que me fazem acreditar que o trabalho será bem realizado. Não vou ter amigos ou conhecidos capazes de indicar ninguém nessa especialização.

O LinkedIn para esse tipo de mercado de trabalho é o ambiente mais indicado, ele conecta os profissionais do mundo todo e está colocando funcionalidades para solucionar o problema de confiabilidade entre os agentes como o “X endorses Y“, onde um colega afirma que você domina determinados conhecimentos.

A especificidade da minha necessidade mostra a tendência de super-especialização que o mundo está dirigido.

O avesso disso são profissionais que ainda não se decidiram e se especializaram em ‘micro-tasks’ e ficarão ‘catando’ trabalhos de baixa compensação, reclamando que o mundo é injusto.

Dessa forma, o conselho é que é necessário se decidir por uma carreira específica dentro de um campo de conhecimento em detrimento de uma categoria geral. Você pode dizer que a categoria geral pode gerar mais oportunidades mas a verdade é que não. A especialização e o sacrifício da decisão, e seu aprofundamento e aperfeiçoamento é que vão gerar suas oportunidades.

Se você fosse um técnico de futebol, você contrataria um jogador de futebol ou um lateral esquerda com chute forte de canhota?

Para empresas, o mesmo, só que pior

A tendência e conselho também serve para empresas globais que estão ficando cada dia mais super-especializadas. Um software que resolva bem um problema do dia-a-dia do Brasil provavelmente resolva problemas em outros países do mundo conectado. Ele não tem que resolver todos os problemas, mas tem que resolver problemas específicos melhores do que qualquer um.

Você precisa de algo, vai no Google e começa a busca. Em geral, você procura em algo como 10 fontes de informação para encontrar uma solução adequada ao seu problema e não se pergunta sobre de onde ela é, se New York ou Bangalore ou mesmo Campinas. Você escolhe a solução mais popular e mais confiável dentro de um valor que estaria disposto a pagar. As ferramentas e aplicativos digitais são os mais claros exemplos dessa economia interconectada.

O consumidor está a procura de uma ferramenta testada e confiável, eleita por voto popular como a mais capaz de realizar a função que você deseja e não importa a sua origem. A especificidade importa, a popularidade importa e com certeza é mais fácil conseguir a segunda, tendo o máximo da primeira.

O raciocínio da escala global para se ter massa crítica vale aqui também. Ferramentas super-especializadas tem razão de existirem apenas em um mercado abrangente o suficiente onde haja um número suficiente de compradores para a empresa prosperar.

O paradoxo é que o mundo ficou do tamanho da tela do seu computador embora mais complexo e sofisticado do que nunca.

  • Muito bom, André!

    O post é corretíssimo, pois a tendência/realidade já é a especialização. Todo mundo quer trabalhar com alguém especializado, em qualquer atividade.

    O problema é que, a grande maioria das empresas ainda buscam os profissionais multi-taskers devido a maldita redução de custos. Querem profissionais que cumpram várias funções, sem compreender o reflexo desse erro.

    Acho que, o consumidor final será o grande responsável pela inserção do micro-tasking no mercado, pois suas exigências aumentam a cada dia.

    A grande sacada agora é tentar seguir esse belo caminho, nadando contra as ondas do mundo moderno.

    Abraços! 🙂

    • Oi Hudson, obrigado 🙂

      As empresas que não tem um time de primeira e que não dá valor em montar um time A, está com os dias contados. Fuja delas.

      As empresas são antes de mais nada, times. E você não quer estar em um time em vias de ser rebaixado. Um time de primeira contrata jogadores de primeira (ou em vias de). Acho que é importante ter essa clareza no momento de se entregar a um posto de trabalho. Steve Jobs dizia que Líderes A contratam um time A e líderes B contratam um time C, kkkk acho que era isso.

      Vale a pena no médio prazo se especializar ao máximo e procurar empresas e líderes que procuram por profissionais especializados. É mais fácil de fazer essas duas espécies se encontrem com a internet como foi no caso que eu retratei no post. Hoje, você está há alguns cliques de uma empresa que te valoriza pelo trabalho que você vem desenvolvendo. É algo que demanda trabalho e lições de casa mas com paciência a recompensa vem. A história e a ciência mostram 🙂

      abraços e obrigado mais uma vez. André

      • Com certeza!

        Um líder visionário contrata pessoas melhores do que ele. O líder medíocre faz ao contrário.

        Eu acredito também no reconhecimento da especialização, e como você disse, é muito mais fácil as espécies “certas” se encontrarem pela internet. Na verdade, talvez seja o único caminho e o mais curto.

        É um prazer estar por aqui. 🙂
        Abraço!

  • Eu concordo plenamente no que diz respeito ao foco das empresas. Acho que para uma empresa obter êxito, ela precisa resolver um problema bem específico. Mas eu não concordo na questão pessoal. Os melhores CEOs do mundo são especialistas em quê? Analisando o perfil deles, percebe-se que eles tem um grande conhecimento na área em que atuam, mas conhecem muito sobre muita coisa, finanças, marketing, desing, etc…

    • Jean,

      será que não podemos dizer que os CEOs são especializados na gestão de empresas de grande porte ou conglomerados de determinado segmento bastante específico?

      Um executivo desses em geral nasce dentro da empresa e sobe ou vem da concorrência. O fiasco da passagem de John Sculley vindo da Pepsi para a Apple como exemplo negativo e Marisa Meyer tentando reerguer o Yahoo vindo do Google.

      Não se contratam CEOs, contrata-se CEOs especializados em uma indústria específica. Executivos já acostumados com o segmento, com networking, metodologia comprovada…que trazem know-how bastante sofisticado e específico.

      Acho que se encaixa ainda no modelo. Você não acha?

      • Concordo! O que o Hudson falou se encaixa bem no que eu enxergo. O exemplo do ínicio da Apple é muito bom. Steve Jobs e Wosniak. Um “especialista” em design, marketing, arte, interface homem-máquina.. e outro especialista técnico, um engenheiro . Nenhum vive sem o outro. Mas a minha pequena experiência ao trabalhar com especialistas, é que eles são muito, muito bons em fazer aquilo. Só aquilo. Enquanto os caras mais criativos que conheci, não eram especialistas, eram abrangentes, sempre apresentavam as melhores soluções (as quais precisavam ser feitas por um especialista..rsrs) e eram os caras mais visionários. Me interessei por esse assunto justamente porque é uma dúvida que me ronda e minha conclusão é que os dois perfis andando juntos, são imbatíveis. Eu curto o Jornal do Empreendedor justamente por isso. Lá não é uma página como outra qualquer de negócios. Lá tem um conteúdo amplo, sobre arte, problemas sociais, música, business, etc… justamente como eu acho que tem que ser a formação de um empreendedor. Vasta.

    • Acho que também é preciso separar os “gênios” dos demais CEOs, para podermos formar esse raciocínio.

      O conhecimento geral é valioso, mas não é suficiente hoje em dia.

      Também vamos levar em consideração que, se esses CEOs possuem equipes fantásticas (especializadas) trabalhando com eles, tudo será diferente, com resultados bem melhores. São “N” combinações e resultados.
      🙂

  • Escrevi e apaguei o comentário umas 10 vezes, sempre que começo a escrever sobre o assunto entro em conflito. Tenho que meditar mais sobre esse assunto, para que eu possa ter maior clareza, pessoalmente. A princípio acho muito “Adam Smithistico” se especializar. E esse tempo de um apertar parafuso e o outro martelar, já foi. Não vejo o ser humano se tornando cada vez mais um alien, espero que a natureza humana siga rumo a criatividade, que necessita de diversidade.

    Já que falamos em futebol, dependendo da minha necessidade eu contrataria o lateral esquerdo com chute forte. Mas é bom registrar, os maiores times que o mundo já viu eram formados por jogadores de futebol. Na laranja mecânica, ninguém guardava posição, todos defendiam e atacavam em qualquer posição do campo. O recente e histórico barcelona é formado por jogadores de futebol, quando contrataram um especialista (Ibrahimovic para ser pivot), não houve adaptação. Todos sabem defender e atacar, cada um na sua claro, mas o time se move em bloco, com Messi extra-classe, claro.

    No fim das contas acho que o verdadeiro campeão é aquele que na hora que um problema vem em sua direção, ele resolve. Ele resolve. Qualquer que seja o problema, ele resolve. Cristiano Ronaldo e Messi talvez sejam equivalentes em especialização técnica em todos os fundamentos do futebol. Ambos são muito bons, mas Messi resolve mais.

    Esse debate tá longe de ser algo trivial, acho muito complexo. Mas já cresci lendo o artigo, e os comentários dos colegas aqui. Acho que só assim para ter mais clareza mesmo.

    Vlw André.
    Abraços

    • Valeu, Vinicius.
      Eu acho o contrário…quem se especializar “profundamente”e se tornar bom o suficiente para chamar a atenção, vai acabar levando a melhor, na minha opinião. As necessidades são cada dia mais especializadas e com a internet, os especialistas vão dominar. Ou você é o melhor na sua micro-categoria e leva tudo ou você é deixado de lado com os restos…é exagerado mas é assim pra fazer o ponto.
      Abraços!