Por que os humanos precisam de uma tribo

Religião. Esportes. Guerra. O biólogo E.O. Wilson escreve sobre nosso impulso para se juntar a um grupo – e por lutar por ele – é o que nos faz humanos.

E.O. Wilson
O Entomologista Edward O. Wilson é Pellegrino University Research Professor na Harvard University e duas vezes ganhador do Prêmio Pulitzer para o genêro não-ficção.

Você já se perguntou porque em uma campanha eleitoral, nós ouvimos tantas vezes incitações a guerras contra isso ou aquilo? Por que os religiosos entre nós se irritam tanto quando se discute a história que eles acreditam? Ou até, porque os times evocam tanta lealdade, alegria e desespero?

A resposta é que cada um de nós, sem exceção, deve possuir uma tribo, uma aliança pela qual lutar por poder e território, para demonizar o inimigo, organizar comícios e levantar bandeiras.

Sempre foi assim. Na história antiga e pré-história, as tribos deram conforto visceral e orgulho para companheiros e uma maneira de defender o grupo entusiasticamente contra grupos rivais. Isso deu às pessoas um nome somado aos seu próprio e um significado social num mundo caótico. Isso fez o mundo menos confuso e perigoso.

A natureza humana não mudou. Os grupos modernos são psicologicamente equivalentes às tribos da história antiga. E, esses grupos são diretamente descendentes de bandos de humanos primitivos e pré-humanos.

Neste vídeo, E.O.Wilson fala um pouco sobre seu livro “The social conquest of Earth” e ecosistemas.

O impulso de se juntar a grupos está profundamente entranhado em nós, como um resultado de uma complicada evolução que levou nossa espécie a uma condição a qual os biólogos chamam de eusociologia. “Eu-“, é um prefixo que significa agradável ou bom: a eufonia é algo que soa maravilhoso; a eugenia é a tentativa de melhorar os genes. E, o grupo eusocial é constituído de gerações e gerações de humanos nas quais seus membros realizaram atos altruístas, muitas vezes contra seus próprios interesses pessoas para o benefício de seu grupo. A eusocialidade é um desenvolvimento de uma nova forma de entender a evolução, que mistura a seleção natural tradicionalmente popular (baseada em indivíduos competindo entre si) com a seleção de grupo (baseada na competição entre grupos). A seleção individual tende a favorecer o comportamento egoísta. A seleção de grupo favorece o comportamento altruísta e é responsável pela origem de níveis mais avançados de comportamento social, atingidos pelas formigas, abelhas, cupins – e humanos.

Entre os insetos eusociais, o impulso em apoiar o grupo em detrimento do indivíduo é amplamente instintivo. Mas para jogar esse jogo a maneira humana, se requeriu uma mistura complicada de calibrado altruísmo, cooperação, competição, dominação, reciprocidade, defecção e engano. Os humanos tiveram que sentir empatia pelos outros, para medir as emoções de um amigo e de um inimigo da mesma forma, para julgar as intenções de todos eles e planejar uma estratégia para suas interações sociais pessoais.

Como resultado, a mente humana se tornou simultaneamente inteligente e intensamente social. Ela teve que construir cenários mentais das relações pessoas rapidamente, tanto no longo quanto no curto prazo. Suas memórias tiveram que viajar distante para o passado para tirar conclusões de cenários antigos e ir para o futuro para imaginar as conseqüências de cada relacionamento. Quem gerencia esses planos de ação são as amígdalas cerebelosas e outros centros de controle emocionais do cérebro e o sistema nervoso autônomo. E, assim nasceu a condição humana, egoísta em um momento, altruísta em outro e os dois impulsos frequentemente em conflito.

Hoje, o mundo social de cada ser humano moderno não é de uma única tribo e, sim de um sistema de tribos interconectadas dentre as quais é frequentemente difícil encontrar uma bússola única. As pessoas gostam da companhia de amigos com a mesma “cabeça”, e torcem para estarem em um dos melhores grupos – um regimento da marinha, uma escola de elite, no comitê executivo de uma empresa, em um secto religioso, uma fraternidade, um clube – qualquer coletividade que pode ser comparada favoravelmente com outro grupo competidor na mesma categoria.

A sede por pertencer a um grupo e pela superioridade deste grupo pode ser satisfeita até mesmo pela vitória simbólica de seus guerreiros em lutas travadas campos de guerra ritualizados, como acontece nos esportes. Os fãs são elevados ao verem uniformes, símbolos e artefatos de guerra, taças de campeonato e bandeiras tremulando. Quando os Boston Celtics venceram os Los Angeles Lakers pelo título da NBA (National Basketball Association) em uma noite de junho de 1984, o mantra era “Celts Supreme!”. O psicólogo social Roger Brown, que testemunhou a celebração posterior, comentou: “Os fãs sacudiram o estádio e todos os bares da região, dançando, gritando. Passeavam de carro gritando e cantando por toda a cidade…não parecia para mim que aqueles fãs estavam apenas simpatizando ou empatizando com seu time. Eles estavam voando alto pessoalmente. Naquela noite, a auto-estima de cada fã foi suprema. A identidade social fez muito pelas identidades pessoais de cada um.”

Os discípulos pelo fotógrafo James Mollison
Todos queremos pertencer a uma tribo. Fotos por James Mollison em The Disciples.

Os experimentos conduzidos por muitos anos por psicólogos sociais têm revelado quão aguda e decisivamente as pessoas se dividem em grupos e então discriminam em favor dos quais eles pertencem. Até quando os psicólogos criam grupos arbitrariamente, preconceitos rapidamente são estabelecidos. Se os grupos apostam centavos ou são divididos por sua preferência por algum pintor abstrato ao invés de outro, os participantes sempre discriminam para baixo os outros grupos. Eles julgam seus “oponentes” como sendo menos desejáveis, menos justos, menos confiáveis, menos competentes. Os preconceitos são criados mesmo quando os participantes sabem que os grupos foram determinados arbitrariamente.

A tendência de formar grupos e então favorecer os indivíduos deste grupos é marcado pelo instinto. Isso pode não ser intuitivo: algumas pessoas podem argumentar que essa inclinação em favor do grupo é condicionada, e não instintiva, e que nos afiliamos com membros da família e que brincamos com as crianças vizinhas porque fomos ensinados a fazer isso. Mas a facilidade com a qual nós acabamos nos afiliando diz que somos inclinados dessa maneira – o que os psicólogos chamam de “aprendizado preparado”, uma propensão inata para se aprender algo rapidamente e decisivamente. E então, os psicólogos cognitivos tem encontrado que recém-nascidos são mais sensíveis aos primeiros sons que ouvem, ao rosto da mãe e aos sons de sua linguagem nativa. Mais tarde, eles preferem pessoas que falam sua língua nativa. Similarmente, as crianças tendem a selecionar pessoas que falam a sua língua nativa como amigos.

Esse impulso para formar e ter prazer em uma afiliação dentro de um grupo se traduz facilmente em um tribalismo maior. As pessoas são inclinadas ao etnocentrismo. É um fato desconfortável em que até quando dada uma opção “sem culpa”, os indivíduos preferem a companhia de outros da mesma raça, nação, clã e religião. Eles se confiam mais, relaxam melhor nos negócios e em eventos sociais, e preferem-os mais para parcerias matrimoniais. Eles são mais rápidos em ficar com raiva quando sabem que um indivíduo de fora do grupo está se comportando de forma injusta ou recebendo recompensas não devidas. E, ficam ainda mais hostis quando indivíduos de fora do grupo estão se aproximando de seus territórios ou de recursos do grupo ou de indivíduos do grupo.

Quando em experimentos, negros e brancos norte-americanos veem imagens de outra raça, suas amídalas, o centro do cérebro para o medo e a raiva, são ativadas tão rapidamente e repentinamente que os centros do cérebro não percebem sua resposta. O sujeito, em efeito, não pode se ajudar. Quando, de outro lado, contextos apropriados são adicionados – por exemplo, a aproximação de um médico afro-americano e um paciente branco – dois outros lugares do cérebro integrados com os centros de aprendizado de alto nível, o cortex cingulate e o cortex dorsolateral preferencial, acordam, silenciando o efeito da amídala. Isso quer dizer que partes diferentes do cérebro evoluíram por seleção de grupo para criarem uma espécie de sentimento de grupo, bem como para mediar essa propensão.

Quando a amídala define a ação, entretanto, há pouco ou quase nenhuma culpa no prazer experimentado ao assistir eventos esportivos violentos ou filmes de guerra na qual a história acaba na destruição do inimigo. Os horrores acabam sendo fascinantes. A guerra é a própria vida aprofundada, é a vida in extremis.

A literatura e a história são cheias de histórias nesses extremos, como na seguinte de Judas 12: 5-6 no Velho Testamento: os Gileaditos capturaram os rios do Jordão que levam a Efraim e quando um sobrevivente de Efraim diz, “Deixe me passar”, os soldados de Gilead perguntam: “Você é um Efraimita?”, se ele responder “Não”, eles diziam: “Então diga “shibboleth”. Se ele dissesse “sibboleth” por não conseguir pronunciar a palavra corretamente, eles o prendiam e matavam. Quarenta e dois mil Efraimitas foram mortos assim naquele tempo.

A pesquisa nos mostra que a agressividade tribal dada de muito antes dos tempos neolíticos. E, há uma boa chance de ser uma herança muito mais antiga, datando de antes da divisão de linhagens há 6 milhões de anos que diferenciaram os modernos chimpanzés dos humanos.

Os padrões de violência coletiva nos quais os chimpanzés jovens do sexo masculino se engajam são similares aos dos humanos. Ao largo de constantemente competirem por status, para si próprios e para suas gangues, eles tendem a evitar confrontos abertos com tropas rivais, preferindo ataques surpresa. O propósito dos ataques feitos por gangues de machos em comunidades próximas é evidentemente para matar ou afastar seus membros e adquirir seus territórios. Essas conquistas em condições naturais foram testemunhadas por John Mitani e seus colaboradores no Parque Nacional Kibale em Uganda. A guerra dos chimpanzés, que tomou 10 anos, era incrivelmente similar às humanas. A cada 10 a 14 dias, as patrulhas de até 20 machos penetravam no território inimigo se movendo silenciosamente em uma única fila, examinando atentamente do solo ao topo das árvores e qualquer ruído no mato. Se eles encontrassem uma força maior que a própria, os invasores saiam correndo e voltavam a seu território. Quando encontravam um macho solitário, entretanto, eles o atacavam e o matavam. Quando uma fêmea era encontrada, eles geralmente a deixavam ir (se entretanto ela carregasse um bebê, eles o pegavam e o comiam). Finalmente, após uma pressão constante e longa, as gangues invasoras simplesmente anexaram o território inimigo, o que contribuiu para um aumento de 22% do território para a comunidade dos vitoriosos.

Nossa natureza sangrenta, pode ser argumentado no contexto da biologia moderna, está tecida em nossa genética por causa das lutas grupo contra grupo, que foi a principal força que nos tornou quem somos agora. Na pré-história, a seleção do grupo elevou os hominídeos para ter a capacidade de solidariedade, genialidade e organizações empresariais. E, também para o medo. Cada tribo sabia com justificativa que se ela não estivesse armada e pronta, sua existência estaria sob perigo. Por toda a história, a evolução de grande parte da tecnologia tem tido o combate como seu propósito central. Hoje, o apoio popular político é incendiado ao se apelar para emoções de um combate mortal, onde a amígdala é o grande chefe. Encontramos-nos em “uma batalha” para acabar com os derramamentos de petróleo, “em luta” para domar a inflação, “em uma guerra” contra o cancêr. Sempre que há um inimigo, animado ou inanimado, haverá uma vitória.

Qualquer justificativa para uma guerra real irá resolver até quando parecer o suficiente para proteger a tribo. Relembrar os horrores do passado não gera nenhum efeito. Não se pode achar que a guerra, frequentemente acompanhada de genocídio, é um artefato cultural de poucas sociedades. Nem tem sido uma aberração da história, um resultado das dores de amadurecimento de nossa espécie. As guerras e os genocídios tem sido universais e eternos, não respeitando nenhum momento no tempo ou cultura. Em geral, as grandes guerras tem sido substituídas por pequenas guerras de tipo e magnitude mais típicas de sociedades agrícolas primitivas de caçadores-colhedores. As sociedades civilizadas tentaram eliminar a tortura, a execução e morte de civis mas aqueles que lutam essas pequenas guerras em geral, não aderem.

A civilização aparenta ser o produto redentor da competição entre os grupos. Por causa dela, nós lutamos pelo bem e contra o mal, e recompensamos a generosidade, compaixão e altruísmo enquanto punimos ou coibimos o egoísmo. Mas se o conflito entre grupos produz o melhor em nós, ele também cria o mais mortal. Como humanos, esta é o maior e o pior das nossas heranças genéticas.

 

Baseado no artigo da Newsweek Magazine.