Toda a forma de saber será hackeada

“Quanto mais a sociedade se distancia da verdade, mais ela odeia aqueles que a revelam.”
George Orwell

A internet já é um campo minado. Buscamos informação para viver e recebemos informação corporativa e monitoramento governamental. O sonho da internet acabou?

Marketing de conteúdo é a nova moda na internet e promete estragar mais um pouco do ambiente jogando mais lixo na rede.

Novidade não é, mas parece…movida pelo interesse dos players corporativos querendo comercializar seus aplicativos, serviços, broches e camisetas. A expressão “The content is king” já é falada até aqui no bar perto de casa mas tem gente que ainda acha que é a mais recente descoberta humana.

A grande maioria das empresas, hoje, está sendo pressionada a produzir seu próprio conteúdo informativo e não-publicitário para construir e engajar seus consumidores, diga-se tribo. Notícias, novidades, artigos, opinião, livros, infográficos, tweets, Facebook posts, Youtube vídeos…Slideshares, publicados com regularidade. Como era de se esperar, há mais porcaria do que nunca eclodindo no “universo paralelo” digital que diz mais ou menos assim: “Vocês, consumidores idiotas e manipuláveis, podem consumir esse lixo de conteúdo e compartilhar entre seus amigos (mais idiotas ainda) assim podemos criar um efeito em cadeia de compra do meu produto.”. E, então desse pensamento sublime emergem novidades esdrúxulas como detalhes sobre o acabamento do fio que interliga o fone de ouvido ao jack, ou a cor da cueca do Jay-Z, sem falar nos ‘leaks’ de produtos a serem lançados em bares nos arredores da matriz em São Francisco.

Ainda bem que feed não tem cheiro.

Com a adoção em massa do tal do marketing de conteúdo, o ambiente já caótico e entupido da internet vai ganhar mais e mais conteúdo interessado em formar sua opinião para este ou aquele produto dentro de uma bolha estreita de consciência comercial que, se não filtrada, pode permear nossas vidas breves com seus motivos mortais.

“Big Data” é mais um desses. Quantas vezes você cruzou com o termo hoje?

Há alguns anos atrás, a palavra em voga era a Web 2.0 e as ferramentas de conteúdo gerado pelo usuário. Haviam blogs por todas as partes, mas ainda se discutia a necessidade de geração de conteúdo autêntico por parte das empresas e profissionais. Hoje, se você não gera conteúdo, está óbvio que perde espaço importante para a concorrência ou para todo o restante do universo de informações querendo chamar sua atenção.

É verdade: não há opção a não ser jogar o jogo do conteúdo. Ou você publica ou perece…melhor ainda: quem não se comunica se estrumbica.

Isso que cria um paradoxo: quanto tudo chama a atenção, nada chama. E, o volume e bizarrices vão aumentando até chegarem a loucuras paparazzianas que já nos acostumamos.

Bem vindo a era da economia da atenção (ou da deseducação)

A abundância de informação que vem por todos os lados hoje é inédita. O ser humano nunca criou e consumiu tanta informação. Nem é feito pra isso. Embora, ela siga se organizando de alguma forma, por meio de palavras-chave, hashtags, tags, meta-tags e threads de discussão, é muita informação. Uma porrada. Informação suficiente para deixar as pessoas em um estado de alerta e exaustão ao longo do processo. Talvez, mais superficiais e, chato falar, mais suscetíveis aos truques das big corps.

A noção de tempo também mudou com a internet: não vivemos mais um tempo linear, mas um real-time-não-linear com infinitos começos, meios e fins, vindo e indo, nos 360 graus da nossa mente. Há uma distinção de que a vida não é mais uma história mas um jogo aberto sendo decidido num presentismo eterno. Sem pé nem cabeça.

Sem exagero, é tanta informação ao mesmo tempo que a analogia que eu encontro é me imaginar tomando um caldo num tsunami e rolando sem saber onde vou parar. Afogamento por informação.

Frictionless and Fast and Global

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Não acredite em nada, não importa onde se lê ou quem fale, mesmo que seja eu quem diga, a menos que você concorde com sua própria razão, seu próprio senso comum.

A arena é global e imediata. Você é atingido por conteúdo de todo planeta e principalmente dos que sabem jogar o jogo do conteúdo e da “propaganda” no pior sentido da palavra.

E, isso, só tende a aumentar com todos seus prós e contras.

O problema é sempre o mesmo: quando há uma conexão fortalecida como agora com a globalização das comunicações, a coisa toda acaba juntada para o bem e para o mal.

Enquanto a internet e essa montanha de dados são geradas e cruzadas e se cria um embasbacável sistema nervoso ultra humano, as verdades e consensos fabricados continuam sendo construídos de forma mais contundente e mais rápida do que nunca.

Os interesses corporativos estão encontrando novas formas de se adaptar e prevalecer no ambiente digital. E, o nome pra isso é Marketing de Conteúdo, uma engenhosa maneira de manipular sua opinião para que sua jornada de busca e iluminação culmine em uma compra.

Marketing de conteúdo é poderoso quando não parece marketing de conteúdo, mas conteúdo importante. Ou seja, quanto melhor a fantasia de ovelha, mais o lobo come.

Quem pode agora dizer que o que você lê na internet não foi propositalmente construído como uma armadilha onde o pato é…você? Você consegue dizer ao certo se a própria internet não é por si só, a essa altura, …

O jogo é antigo mas as armas são novas e o caminho de migalhas está ficando tão extenso e complexo que é difícil descobrir os interesses e as razões veladas em um conteúdo na internet.

A internet tem inúmeras formas de combater essa enxurrada de conteúdo “bugado” criando subterrâneos sob subterrâneos mas, para quem ainda nada na superfície, vai ficar cada dia mais difícil não ter sua mente programada por conteúdo construído. Muita gente vai sofrer, senão o mundo todo e o futuro. É a zumbilândia que, como no filme condena a todos, até mesmo os criadores engenhosos e inescrupulosos dessa “nova” arma de marketing.

Uma coisa é certa: toda a forma de saber será hackeada na internet.

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  • Márcio Baptista

    Muito bom seu artigo André, Parabéns! Tá ficando cada vez mais difícil encontrar algo na rede que não seja para lhe induzir ou manipular. Eu já estou ficando até meio escaldado, começo a ler, e se percebo que tem marketing de conteúdo caio fora. Tá complicado mesmo parceiro. Abraço!

    • Oi Márcio, obrigado. Concordo com você, tem muita porcaria na internet mas… vamos tentando achar um jeito de nos esquivar e encontrar as fontes que merecem ser lidas. Por mais que o post seja focado no lado negativo, a verdade é que tem muita coisa incrível tb. por aí. Mais do que nunca. Abraços!

  • Carla Viera

    ótimo texto.
    não acredite em nada…. e nem desacredite.

  • Morcego

    sensacional seu texto. bálsamo no meio de tanto lixo.

    • Obrigado, Morcego man. Estamos preparando um novo blog, só com coisas boas (além do jornaldoempreendedor.com.br) e mais técnicas que vai se chamar The Growth Hacker > thegrowthhacker.com.br . Pelo jeito você vai gostar pq. vamos publicar lá só coisas relacionadas.

  • Marcos Rachid

    Realmente é cansativo tanto senso comum. E, mais ainda, é cansativa essa árvore genealógica parecer tão idêntica com aquela do filme “idiocracy”. Foi-se o tempo que esse mundo dominado por pseudointelectuais era só uma visão de um diretor ou escritor. Se imprimirmos esse texto, colocarmos capa dura e vendermos, tenho certeza que o valor é maior do que muito livro exposto nas livrarias desses país, ou melhor, do mundo.

    • Valeu, Marcos. Vou tentar escrever mais coisas legais nesse sentido que estão pipocando na minha cabeça desde sempre. Recomendo o filme Le Capital, acho que se você gostou do texto, vai gostar desse filme que retrata o mundo de hoje de uma forma similar, essa coisa das corporações e do dinheiro permeando as “formas sagradas” de comunicação humana para o bem e subvertendo para seus interesses. Grande abraço e apareça sempre.

    • Marcos, escrevi um novo: http://andrebartholomeufernandes.com/o-empiclecimento-global/ sobre o mesmo assunto daqui. Espero que goste. abraços

  • Chris

    Como o The Growth Hacker ensina? 😀