Um mundo dividido (A World Split Apart) — Tradução do discurso de A. Solzhenitsyn

Aleksandr I. Solzhenitsyn é um dos maiores escritores russos e com certeza um dos maiores do mundo. Ex-oficial do exército vermelho, largou o comunismo depois de 11 anos preso entre campos de concentração na Sibéria e hospitais militares.

Ganhou um prêmio nobel em 1970 e foi deportado pelo regime soviético em 1974. Passou por vários países até chegar aos Estados Unidos em 1976.

Em 1978 na ocasião do recebimento de um título Honorário de Doutor em Harvard , ele apresentou um discurso que é um retrato impressionante dos valores da cultura ocidental, e que permanece assustadoramente atual após 37 anos. Ideal para quem sempre achou que tem algo de errado no mundo, mas nunca conseguiu entender bem o quê.

Eu não encontrei esse discurso traduzido para o português, e resolvi resolver essa atrocidade. O resultado é o que segue abaixo.

Em tempo: o que se segue é uma tradução de uma tradução. O discurso original foi feito em russo e traduzido simultaneamente, portanto não espere uma grande riqueza de nuances da linguagem. Você pode ajudar a revisá-lo comentando sobre eventuais erros de tradução ou de gramática. O que importa mesmo é a mensagem que ele contém.


Um mundo dividido

Aleksandr I. Solzhenitsyn — Discurso em Harvard — 8 de Junho de 1978

Eu estou sinceramente feliz de estar aqui com vocês, na ocasião da 327ª formatura desta velha e ilustre universidade. Meus parabéns e os melhores votos para todos os graduados de hoje.

O mote de Harvard é “VERITAS”. Muitos de vocês já descobriram e outros irão descobrir no curso de suas vidas que a verdade nos ilude a medida que nossa concentração começa a fraquejar, o tempo todo deixando a ilusão de que estamos buscando-a continuamente. Esta é a fonte de muitas divergências. A verdade também é raramente doce; é quase invariavelmente amarga. A medida da verdade está incluída no meu discurso de hoje, mas eu a ofereço como um amigo, não como um adversário.

Três anos atrás nos Estados Unidos eu disse certas coisas que foram rejeitadas e pareceram inaceitáveis. Hoje, no entanto, muitas pessoas concordam com o que eu disse.

A divisão do mundo atual é perceptível até em um relance rápido. Qualquer de nossos contemporâneos prontamente identifica dois poderes mundiais, cada um deles pronto para destruir o outro. Não obstante, o entendimento desta divisão frequentemente é limitado a concepção política: a ilusão conforme tal perigo pode ser abolido através de negociações diplomáticas de sucesso ou pelo alcance de um equilíbrio entre forças armadas. A verdade é que a divisão é não só mais profunda, como mais alienante, e que as falhas são mais numerosas do que qualquer um pode perceber em um relance. Estas profundas e múltiplas divisões carregam o perigo de um igualmente múltiplo desastre para todos nós, de acordo com a antiga verdade de que um reino — neste caso, nossa Terra — dividido contra ele mesmo não poderá suportar.

Há o conceito do Terceiro Mundo: assim, nós já temos três mundos. Indubitavelmente, no entanto, o número é ainda maior; nós estamos simplesmente longe demais para ver. Cada cultura antiga está profundamente enraizada em uma cultura autônoma, especialmente se está espalhada por uma ampla porção da superfície da terra. Constitui um mundo autônomo, cheio de enigmas e surpresas para o pensamento ocidental. No mínimo, deveríamos incluir nisso China, Índia, o mundo muçulmano e a África, se de fato aceitarmos a abordagem de percebermos estes dois últimos como um só.

Por mil anos a Rússia pertenceu a esta categoria, apesar de o pensamento ocidental sistematicamente cometer o erro de negar esta característica especial e portanto não entendê-la, assim como hoje o ocidente não entende a Rússia em seu cativeiro comunista. E enquanto isso possa ter sido assim, nos últimos anos o Japão tem cada vez mais se tornado, de fato, ocidental, tomando contornos ainda mais próximos aos modos ocidentais (não estou julgando aqui), Israel, eu penso, não deveria ser considerado como parte do ocidente, se somente por causa de circunstâncias decisivas que este sistema de estado está fundamentalmente ligado a sua religião.

Há pouco tempo atrás, o relativamente pequeno mundo da Europa moderna foi conquistando colônias através de todo o globo não somente sem antecipar qualquer resistência real, mas frequentemente com o desprezo de quaisquer valores possíveis que os povos conquistados tinham para abordar a vida. Isso tudo parecia um sucesso esmagador, sem limites geográficos. A sociedade ocidental expandiu em um triunfo de independência humana e poder. E de repente, o século vinte mostrou a realização da fragilidade desta sociedade.

Nós agora vemos que as conquistas tiveram uma vida curta e precária (e isso, por sua vez, aponta para defeitos na visão ocidental do mundo que liderou estas conquistas). As relações com o antigo mundo colonial agora mudaram para o extremo oposto e o mundo ocidental frequentemente demonstra um excesso de servilismo, mas ainda é difícil estimar o tamanho da conta que os antigos países coloniais irão apresentar para o ocidente e é difícil de prever se a capitulação não somente destas últimas colônias, mas de tudo o que elas tem, será suficiente para o ocidente esclarecer esta conta.

Mas a persistente cegueira da superioridade continua a manter a crença de que todas as vastas regiões do nosso planeta deveriam se desenvolver e amadurecer para o nível dos sistemas ocidentais contemporâneo, o melhor em teoria e o mais atrativo na prática; que todos estes outros mundos estão temporariamente impedidos (por líderes perversos ou crises severas ou por sua própria barbaridade e incompreensão) de perseguir a pluralidade ocidental adotando o modo de vida ocidental. Países são julgados no mérito de seus progressos nesta direção. Mas a verdade é que esta concepção é um fruto da incompreensão ocidental da essência de outros mundos, um resultado de uma medição errônea, feita com um padrão de medida ocidental. O real cenário do desenvolvimento do nosso planeta tem pouca semelhança com tudo isso.

A angústia de um mundo dividido originou a teoria da convergência entre os países líderes ocidentais e a União Soviética. Esta é uma teoria tranquilizante que negligencia o fato que estes mundos não estão evoluindo para cada um e que nenhum pode ser transformado em outro sem violência. Além disso, a convergência inevitavelmente significa aceitação de outros efeitos colaterais também. E isso dificilmente irá ajudar alguém.

Se eu estivesse falando para um público do meu país, no meu exame do padrão de falhas em todo o mundo, eu me concentraria nas calamidades do oriente. Mas desde que fui forçado e exilar-me no ocidente, nos últimos quatro anos e desde que meu público é o ocidental desde então, eu acredito que seria de maior interesse me concentrar em certos aspectos do ocidente contemporâneo, como eu o vejo.

Um declínio da coragem pode ser a característica mais impressionante que um observador externo pode perceber no ocidente hoje em dia. O mundo ocidental tem perdas de coragem cívica, em geral, como um todo e separadamente em cada país, em cada governo, em cada partido político e é claro, nas nações unidas. Este declínio da coragem é particularmente percebido entre os meios de decisão e nas elites intelectuais, causando uma impressão de perda de coragem em toda a sociedade. Existem muitos indivíduos corajosos, mas eles não tem influência determinante na vida pública.

Políticos e funcionários intelectuais exibem esta depressão, passividade, e perplexidade em suas ações e em suas declarações, e ainda mais em seus raciocínios egoístas tais como o quão realistas, razoáveis e intelectualmente e até moralmente justificáveis eles são para basear políticas de estado em fraqueza e covardia. E o declínio da coragem, alcança o que poderia ser chamado de uma lacuna de virilidade, é ironicamente enfatizada por ocasionais explosões e rigidez da parte destes mesmos funcionários quando estão lidando com governos fracos e com países que carecem de apoio, ou com condenados que claramente não podem oferecer resistência. Mas ficam calados e paralisados quando tem de lidar com governos poderosos e forças ameaçadoras, com agressores e terroristas internacionais.

Alguém poderia apontar em algum dos tempos antigos um declínio da coragem como o primeiro sintoma do fim?

Quando os estados ocidentais modernos começaram a se formar, foi proclamado como um princípio que os governos foram feitos para servir o homem e que este homem vive para ser livre e perseguir a felicidade (Veja, por exemplo, a declaração da independência americana.) Agora, pelo menos nas últimas décadas o progresso técnico e social tem permitido a realização de tais aspirações: o estado de prosperidade.

A cada cidadão foi concedida a desejada liberdade e benefícios materiais em tamanha quantidade e qualidade para garantir, na teoria, o alcance da felicidade, no sentido perverso da palavra, que veio a existir durante estas mesmas décadas. Neste processo, no entanto, um detalhe psicológico foi negligenciado: o desejo constante de ter ainda mais coisas e uma vida ainda melhor, e lutar para este fim imprime em muitas faces ocidentais a preocupação e até a depressão, e é usual esconder cuidadosamente estes sentimentos. Esta ativa e tensa competição veio a dominar todo o pensamento humano e não deixou o mínimo caminho aberto para o desenvolvimento espiritual livre.

Esta independência individual de vários tipos de pressão do estado tem sido garantida; a maioria das pessoas tem sido agraciadas com um bem estar que seus pais e avós não puderam sequer sonhar. Isto tornou possível elevar os jovens de acordo com estes ideais, preparando-os e convocando-os para um florescimento físico, felicidade e lazer, a possessão de bens materiais, dinheiro e prazer, em direção a uma liberdade quase ilimitada de liberdade e escolha de prazeres. Então, quem deveria agora renunciar a tudo isso, para quê deveria arriscar uma preciosa vida em defesa do bem comum e do particularmente nebuloso caso da segurança de uma nação, quando esta deve ser defendida, mesmo em uma terra distante?

Até a biologia nos diz que o alto grau de bem estar não é vantajoso para um organismo vivente. Hoje, o bem estar na vida da sociedade ocidental começou a retirar esta máscara perniciosa.

A sociedade ocidental, escolheu para si mesma a organização mais adequada para seus propósitos e a isso chamamos legalismo. Os limites dos direitos humanos e de sua retidão são determinados por um sistema de leis. Estes limites são muito amplos. Pessoas no ocidente adquiriram uma considerável habilidade em usar, interpretar e manipular leis (embora as leis tendam a ser demasiadamente complicadas para uma pessoa média compreender sem a ajuda de um especialista). Cada conflito é resolvido de acordo com a carta da lei e isto é considerado a solução definitiva.

Se alguém é elevado ao ponto de vista legal, nada mais é requerido, ninguém pode mencionar se ele poderia estar errado, se incita autocontrole ou uma renúncia de direitos, se atende ao chamado para o sacrifício ou a um risco altruísta: isto iria soar simplesmente absurdo. Autocontrole voluntário é algo quase despercebido: qualquer um esforça-se na expansão dos limites extremos do enquadramento legal (uma companhia de petróleo é legalmente isenta de culpa quando compra uma invenção de um novo tipo de energia para prevenir o seu uso. Um fabricante de comida é legalmente isento de culpa quando envenena sua produção para fazê-la durar mais, até por que, as pessoas são livres para não comprar.)

Eu passei toda minha vida sob um regime comunista e vou lhes dizer que uma sociedade sem nenhuma escala legal objetiva é de fato terrível. Mas uma sociedade baseada no texto da lei e que não alcança nada mais alto, falha ao tomar todas as vantagens de toda a extensão das possibilidades humanas. O texto da lei é demasiado frio, formal para ter uma influência benéfica na sociedade. Sempre que o tecido da vida é trançado por relações legais, isso gera uma atmosfera de mediocridade espiritual que paralisa os mais nobres impulsos do homem.

E será impossível resistir às investidas deste século ameaçador com nada além do suporte de uma estrutura legal?

Hoje, a sociedade ocidental revelou a desigualdade entre a liberdade para as boas ações e a liberdade para as más ações. Um estadista que quer alcançar algo altamente construtivo para seu país tem que se mover cautelosamente e timidamente. Milhares de apressados (e irresponsáveis) críticos se agarram nele em todos os tempos. Ele é constantemente rejeitado pelo parlamento e pela imprensa. Ele tem que provar que cada passo é bem fundamentado e absolutamente perfeito. Certamente, uma extraordinária e verdadeiramente grande pessoa que tem iniciativas incomuns e inesperadas em mente não tem nenhuma chance de se afirmar. Dezenas de armadilhas serão armadas para ele desde o início. Assim, a mediocridade triunfa sob a aparência de restrições democráticas.

É factível e fácil em qualquer lugar, enfraquecer um poder administrativo, e isso tem sido de fato enfraquecido drasticamente nos países Ocidentais. A defesa dos direitos individuais alcançou tais extremos ao ponto de fazer a sociedade como um todo, indefesa contra certos indivíduos. É tempo, no ocidente, de defender não somente os direitos humanos como as obrigações humanas.

Por outro lado a liberdade destrutiva e irresponsável tem sido concedida ilimitadamente. A sociedade tem se orientado para ter uma escassa defesa contra o abismo da decadência humana, por exemplo contra o mau uso da liberdade para violência moral contra jovens, tais como filmes cheios de pornografia, crimes e horror. Isto tudo é considerado como parte da liberdade e deve ser contrabalanceado, em teoria, pelo próprio direito dos jovens de não ver e não aceitar. A vida organizada legalmente tem mostrado sua inabilidade para defender-se da corrosão do mal.

E o que deveríamos dizer sobre os reinos obscuros da criminalidade explícita? Os limites legais (especialmente nos Estados Unidos) são amplos o suficiente para encorajar não somente os a liberdade individual mas também o mau uso de tal liberdade. O culpado pode sair impune ou obter leniência desmerecidamente. Tudo com o suporte de milhares de defensores na sociedade. Quando um governo se compromete seriamente a extinguir o terrorismo, a opinião pública imediatamente o acusa de violar os direitos civis dos terroristas. Existem vários casos como estes.

Esta inclinação da liberdade para o mal acontece gradualmente, mas evidentemente deriva de um conceito humanista e benevolente de acordo com o qual o homem — o mestre do mundo — não carrega nenhum mal dentro de si mesmo, e que todos os defeitos da vida são causados por sistemas sociais equivocados e que portanto devem ser corrigidos. Ainda suficientemente estranho, embora as melhores condições sociais tenham sido alcançadas no ocidente, ainda há uma grande quantidade de crimes; ainda mais considerável do que na sociedade soviética, pobre e destituída de leis (existe uma multidão de prisioneiros em nossos campos chamados de criminosos, mas a maioria deles nunca cometeu um crime, simplesmente tentaram se defender contra um estado sem lei recorrendo a meios fora dos limites legais.)

A imprensa também, é claro, desfruta da maior liberdade. (Eu deveria utilizar a palavra “imprensa” para incluir toda a mídia.) Mas que uso fazem dela?

Aqui novamente a preocupação essencial não é infringir a lei. Não existe uma verdadeira responsabilidade moral para distorção e desproporção. Que tipo de responsabilidade tem um jornalista ou um jornal para com o leitor ou para com os fatos? Se eles corrompem a opinião pública por meio de informações incorretas ou conclusões equivocadas, ou mesmo se contribuem para erros em um nível de estado, nós conhecemos algum caso de arrependimento público do mesmo jornalista ou do mesmo jornal? Não, isso prejudicaria as vendas. Uma nação pode ser o pior para tal erro, mas o jornalista sempre se afasta disso. É mais provável que ele irá começar a escrever o exato oposto de suas declarações iniciais com uma calma renovada.

Como informações confiáveis e imediatas são requeridas, torna-se necessário recorrer a adivinhações, boatos e suposições para preencher os vazios, e nenhum deles será refutado. Eles se estabelecem na memória dos leitores. Quantos juízos precipitados, imaturos, superficiais e equivocados são expressados todos os dias, confundindo leitores e os deixando em seguida pendurados?

A imprensa pode assumir o papel da opinião pública ou de deseducá-la. Desta maneira, vemos terroristas transformados em heróis ou assuntos secretos, pertencentes a políticas de defesa pública revelados, ou somos testemunhas de uma desavergonhada intrusão na privacidade de pessoas famosas de acordo com o slogan de que “todos têm o direito de saber tudo”. Mas isso é um falso slogan de uma era falsa. Muito mais, em termo de valor, é o direito perdido de as pessoas não saberem, não terem suas almas divinas empanturradas de fofoca, coisas sem sentido, e conversas vãs. Uma pessoa que trabalha e conduz uma vida de sentido não tem necessidade deste fluxo opressivo de informação excessiva.

Precipitação e superficialidade — estas são as doenças psicológicas do século vinte e mais do que em qualquer outro lugar isso se manifesta na imprensa. Uma análise aprofundada de um problema é um anátema para a imprensa; é contrário a sua natureza. A imprensa meramente seleciona fórmulas sensacionalistas.

Tal como é, no entanto, a imprensa se tornou o maior poder nos países ocidentais excedendo o legislativo, o executivo e o judiciário. Porém alguém poderia perguntar: De acordo com que lei isso foi eleito e quem é o responsável ? No oriente comunista, um jornalista é francamente apontado como um oficial de estado. Mas quem votou nos jornalistas em suas posições de poder, por quanto tempo e com quais prerrogativas ?

Existe ainda uma outra surpresa para quem vem do oriente totalitarista com uma imprensa rigorosamente unificada: Se descobre uma tendência comum de preferências na imprensa ocidental como um todo (o espírito daquele tempo), padrões de comportamento geralmente aceitos, e quem sabe interesses corporativos em comum, sendo o resultado desta soma não a competição, mas a unificação. A liberdade irrestrita existe para a imprensa e não para o leitor, pois os jornais em sua maioria transmitem de uma maneira forçada e empática aquelas opiniões que não contradizem abertamente as suas próprias, e esta certa tendência geral.

Sem nenhum censor no ocidente, tendências da moda de pensamentos e ideias são cuidadosamente separadas daquelas que não estão na moda, e depois, sem terem sido proibidas tem uma pequena chance de encontrarem seu caminho em periódicos ou livros ou de serem ouvidas nas escolas. Seus acadêmicos são livres no sentido legal, mas são encurralados pelos ídolos das moda prevalecente. Não existe uma violência aberta, como no oriente. No entanto, uma seleção ditada pela moda e pela necessidade de acomodação aos padrões da massa frequentemente impede as pessoas mais independentes em pensamento de contribuir para a vida pública e dá origem a perigosos instintos gregários que delineiam perigosos desenvolvimentos gregários.

Na América, eu recebi cartas de pessoas altamente inteligentes — quem sabe um professor em um pequeno colégio muito distante que não poderia fazer muito para a renovação e salvação do seu país, mas os país não pode ouvi-lo porque a mídia não lhe concedeu um forum. Isto gera fortes prejuízos a massa, uma cegueira perigosa em nossa era dinâmica. Um exemplo é a auto-ilusória interpretação de que o estado das coisas no mundo contemporâneo funciona como um tipo de armadura petrificada ao redor das mentes das pessoas, em tal grau que vozes humanas de dezessete países do leste europeu e do leste da Ásia não podem penetrar. Isto será quebrado somente pelo inexorável pé de cabra dos acontecimentos.

Eu mencionei alguns traços da vida ocidental que surpreendem e chocam os recém chegados neste mundo. O propósito e o escopo desta palestra não me permite continuar tal exame, em particular para observar o impacto destas características em aspectos importantes da vida da nação tais como educação elementar, educação avançada em humanidades e arte.

É quase universalmente reconhecido de que o ocidente mostrou a todo o mundo o caminho para o desenvolvimento econômico de sucesso, mesmo que os anos passados tenham compensado isso com uma inflação caótica. No entanto, muitas pessoas vivendo no ocidente estão insatisfeitas com sua própria sociedade. Desprezam-na ou acusam-na de não ter mais o nível de maturidade e humanidade. E isso faz muitos oscilarem em direção ao socialismo que é uma corrente falsa e perigosa.

Eu espero que nenhum dos presentes suspeite de mim quando expresso minha crítica parcial do sistema ocidental a fim de sugerir o socialismo como uma alternativa. Não. com a experiência de um país onde o socialismo se realizou, eu não deveria falar em tal alternativa. O matemático Igor Shafarevich, membro da academia soviética de ciências, escreveu um brilhante livro intitulado Socialismo. é uma penetrante análise histórica que demonstra que o socialismo, de qualquer tipo e intensidade, leva a total destruição do espírito humano e a um nivelamento da humanidade na morte. O livro de Shafarevich foi publicado na França, quase dois anos atrás a até agora ninguém conseguiu refutá-lo. Logo será publicado em Inglês, nos EUA.

Mas deveriam me questionar se eu iria propor o ocidente, tal como hoje, como um modelo para o meu país, eu francamente teria que responder negativamente. Não, eu não poderia recomendar sua sociedade como um ideal de transformação da nossa. Através de um profundo sofrimento, as pessoas em nosso próprio país alcançaram agora um desenvolvimento espiritual com tal intensidade que o sistema ocidental no seu estado presente de exaustão espiritual não parece atrativo. Mesmo estas características da suas vidas que eu acabei de enumerar são extremamente entristecedoras.

Um fato que não pode ser questionado é o enfraquecimento da personalidade humana no Ocidente enquanto no Oriente ela tem se tornado mais firme e forte. Seis décadas para o nosso povo e três décadas para o povo da Europa oriental. Durante este tempo nós atravessamos um treino espiritual mais avançado do que a experiência ocidental. A complexa e mortal supressão da vida produziu personalidades mais fortes, profundas e interessantes do que aquelas geradas pela padronização do bem estar ocidental. Portanto, se nossa sociedade fosse transformada na de vocês, isso significaria uma melhoria em certos aspectos, mas também uma mudança para pior em alguns pontos particularmente significantes.

É claro que uma sociedade não pode permanecer em um abismo de ilegalidade, como no caso do nosso país. Mas também é humilhante estar em um desalmado e suave plano de legalismo, como no caso de vocês. Após o sofrimento de décadas de violência e opressão, a alma humana anseia por coisas maiores, mais quentes e mais puras do que estas oferecidas pelos hábitos de vida da massa, introduzidos como um cartão de visita pela revoltante invasão da propaganda comercial , pelo estupor da TV e pela música intolerável.

Tudo isso é visível para numerosos observadores de todos os mundos em nosso planeta. O modo de vida ocidental é cada vez menos provável de se tornar o modelo principal.

Existem sintomas intrigantes que revelam que a história alerta para uma sociedade ameaçada ou decadente. Estes são, por exemplo, um declínio das artes e uma falta de grandes estadistas. Na verdade, algumas vezes os alertas são explícitos e concretos. O centro da sua democracia e de sua cultura é deixado sem energia elétrica por algumas poucas horas, e de repente multidões de cidadãos americanos começam a fazer saques e a criar confusão. A película suave deve ser muito fina, logo, o sistema é bastante instável e doentio.

Mas a luta pelo nosso planeta, físico e espiritual, uma luta de proporções cósmicas, não é um vago assunto do futuro. Ela já começou. As forças do mal já começaram sua ofensiva definitiva. Você pode sentir a sua pressão, mesmo que suas telas e publicações estejam cheias de sorrisos prescritos e copos levantados. Por que a alegria?

Como esta relação desfavorável de forças acontece? Como o ocidente declinou para esta triunfal marcha para a presente debilidade? Houve uma fatal mudança e perda de direção neste desenvolvimento? Me parece que não. O ocidente continua avançando firmemente de acordo com as suas intenções sociais proclamadas, de mãos dadas com um deslumbrante progresso da tecnologia. E de repente, se encontrou neste presente estado de fraqueza.

Eu me refiro a predominante visão ocidental do mundo nos tempos modernos.

Isto significa que o erro pode estar na raiz, na profunda fundação do pensamento nos tempos modernos. Eu me refiro a predominante visão ocidental do mundo nos tempos modernos. Eu me refiro a predominante visão ocidental do mundo que nasceu na renascença e encontrou sua expressão política desde a era do iluminismo. Isto se tornou a base da doutrina social e política e pode ser chamado de humanismo racionalista ou autonomia humanista: a proclamada e praticada autonomia do homem de qualquer força superior que esteja acima dele. Isso também pode ser chamado de antropocentrismo, com o homem no centro de tudo.

Esta virada introduzida pela renascença foi decerto inevitável historicamente. A idade média teve um fim natural, por exaustão, se tornando uma intolerável repressão despótica da natureza física do homem em favor da espiritual. Mas então nós recuamos do espírito e abraçamos tudo o que é material, excessivamente e incomensuravelmente. A maneira humanista de pensar, que se proclamou ela mesma nosso guia, não admite a existência de um mal intrínseco no homem, nem viu nenhuma tarefa superior do que a realização da felicidade na terra. Isto iniciou a moderna civilização ocidental em uma perigosa tendência de adoração ao homem e suas necessidades materiais.

Tudo o que está além do bem estar físico e a acumulação de bens materiais, todos os outros requerimentos humanos e características de uma natureza sutil e superior, foram deixados fora da área de atenção do estado e dos sistemas sociais, como se a vida humana não tivesse nenhum significado superior. Assim, foram deixadas brechas abertas para o mal, e seus rascunhos sopram livremente hoje. A mera liberdade por si nem ao menos resolve todos os problemas na vida humana e ainda adiciona um número de novos problemas.

E ainda em democracias recentes, como na democracia Americana no tempo de seu nascimento, todos os direitos humanos individuais foram concedidos com o fundamento de que o homem é uma criatura de Deus. Isto é, a liberdade foi dada para o indivíduo condicionalmente, na suposição de sua constante responsabilidade religiosa. Esta foi a herança dos últimos mil anos. Há duzentos ou até cinquenta anos atrás, isto teria sido impossível, na América, que a um indivíduo fosse concedida liberdade ilimitada sem um propósito, simplesmente para a realização de seus caprichos.

Subsequentemente, no entanto, todas estas limitações foram corroídas no ocidente; uma total emancipação ocorreu desde a herança moral dos séculos cristãos com suas grandes reservas de piedade e sacrifício. Os sistemas de estado foram se tornando cada vez mais materialistas. O ocidente finalmente alcançou os direitos do homem, e até mais, mas o senso de responsabilidade do homem para com Deus e para com a sociedade cresceu cada vez mais e mais fraco. Nas últimas décadas, o egoísmo legalista da visão ocidental do mundo atingiu seu pico e o mundo encontrou-se em uma dura crise espiritual e em um impasse político. Todas as celebradas conquistas do progresso, incluindo a conquista espacial, não redimem a pobreza moral do século vinte, a qual não poderia ser nem imaginada mesmo tão tarde como no século dezenove.

Como o humanismo em seu desenvolvimento se tornou mais e mais materialista, ele também cada vez mais permitiu que alguns conceitos fossem usados pela primeira vez pelo socialismo e então pelo comunismo, tanto que Karl Marx foi capaz de dizer, em 1844, que “o comunismo é o humanismo naturalizado”.

Esta afirmação provou não ser inteiramente irracional. As pessoas podem não ver as mesmas pedras nas fundações de um humanismo degradado e de qualquer tipo de socialismo: materialismo sem limites; libertação da religião e da responsabilidade religiosa (a qual sob regimes comunistas chegam ao estágio de ditaduras anti-religiosas); concentração nas estruturas sociais com uma pretensiosa abordagem científica (este último típico do iluminismo e do marxismo). Não é acidente que todas as promessas retóricas do comunismo sejam em torno do Homem (com H maiúsculo) e sua felicidade terrena. À primeira vista isto parece um paralelo medonho: traços comuns no pensamento do modo de vida do ocidente atual e do oriente atual? Mas esta é a logica do desenvolvimento materialista.

A inter-relação é tal, por outro lado, que a corrente de materialismo que está o mais distante a esquerda, e portanto o mais consistente, sempre prova ser mais forte, mais atrativo, e vitorioso. O humanismo que perdeu sua herança- cristã, não pode prevalecer nesta competição. Assim, durante os séculos passados e especialmente nas décadas recentes, conquanto o processo se torna mais aguçado, o alinhamento de forças foi como se segue: Liberalismo foi inevitavelmente colocado ao lado do radicalismo, radicalismo teve que se render ao socialismo, e o socialismo não pode suportar ao comunismo.

O regime comunista no oriente conseguiu resistir e cresceu devido ao suporte entusiasmado de um número de intelectuais ocidentais que (sentindo a afinidade!) se recusavam a ver os crimes do comunismo, e quando eles não podiam mais fazer isso, tentaram justificar estes crimes. O problema persiste: Em nossos países orientais, o comunismo sofreu uma completa derrota ideológica; ela é zero e menos que zero. E intelectuais ocidentais ainda olham com considerável interesse e empatia, e isso é precisamente o que torna imensamente difícil para o ocidente resistir ao oriente.

Eu não estou examinando o caso de um desastre trazido por uma guerra mundial e as mudanças que ela produziria na sociedade. Mas enquanto nós acordamos toda manhã embaixo de um sol pacífico, nós devemos levar uma vida cotidiana. No entanto existe um desastre que já está muito conosco. Eu me refiro a calamidade de uma consciência autônoma, humanística e irreligiosa.

Isto fez o homem a medida de todas as coisas na terra — imperfeito homem, que nunca está livre do orgulho, interesse próprio, inveja, vaidade e dezenas de outros defeitos. Nós estamos agora pagando pelos erros não foram adequadamente calculados no começo da jornada. No caminho da renascença até os nossos dias, nós enriquecemos nossa experiência, mas perdemos o conceito de uma suprema entidade completa que costumava restringir nossas paixões e nossa irresponsabilidade.

Nós depositamos muita esperança em reformas sociais e políticas, somente para descobrir que estamos sendo privados de nossas mais preciosas possessões: nossa vida espiritual. Esta é pisoteada pela máfia do partido no oriente e pela comercial no ocidente. Esta é a essência da crise. A divisão do mundo é menos aterrorizante do que a similaridade desta doença que aflige estas duas principais seções.

Se, como reivindicado pelo humanismo, o homem houvesse nascido somente para ser feliz, nós não teríamos nascido para morrer. Sua tarefa na terra evidentemente deve ser algo mais espiritual. Não uma normatização da vida cotidiana, nem a busca dos melhores meios para se obter bens materiais e logo seu consumo despreocupado. Ela deve ser o preenchimento permanente de um dever sério de tal maneira que a jornada da vida se torne acima de tudo uma experiência de crescimento moral: deixar a vida como um ser humano melhor do que quando começou.

É imperativo reavaliar a escala dos valores humanos usuais. Sua incorreção presente é espantosa. Não é possível que a avaliação do desempenho do presidente seja reduzida a questão de quanto dinheiro ele faz ou qual é a disponibilidade de gasolina. Somente nutrindo em nós mesmos uma livre aceitação e uma serena auto restrição, é que a humanidade pode se erguer acima do curso mundial do materialismo.

Hoje isso seria um retrocesso se prender a fórmulas fossilizadas do Iluminismo. Este tipo de dogmatismo social nos deixa desamparados ante as provações do nosso tempo.

Mesmo que sejamos poupados da destruição pela guerra, a vida terá que mudar de maneira que não pereça por si própria. Não podemos evitar a reavaliação das definições fundamentais da vida humana e da sociedade. É verdade que o homem está acima de tudo? Não há espírito superior acima dele? É certo que a vida do homem em atividades sociais deveria ser regulamentada pela expansão material acima de tudo? É licito promover tal expansão em detrimento de nossa vida espiritual integral?

Se o mundo não se aproxima do fim, ele chegou a um grande divisor de águas na história, igualmente importante a mudança da idade média para a renascença. Ele irá demandar de nós um brilho espiritual; nós devemos nos levantar a uma nova altura de visão, para um novo nível de vida, onde nossa natureza física não será maldita, como na Idade Média, mas ainda mais importante, nosso ser espiritual não será pisoteado como na era moderna.

A ascensão é similar a evoluir para um próximo nível antropológico. Ninguém na terra tem outro caminho disponível a não ser — para cima.

Tradução de Vinicius Krause